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domingo, 1 de março de 2015

Empresários penam com demissões em estaleiro na Bahia



Foto: Divulgação

A paralisação das obras de construção do Estaleiro Enseada do Paraguaçu, em Maragogipe, provocou a demissão de mais 3  mil trabalhadores, reduziu a arrecadação de vários municípios  do Recôncavo e ameaça a retomada da indústria naval da Bahia. Mas tudo isso é apenas uma parte do problema.  A outra -  não menos dramática -  é formada por dezenas de pequenos empreendedores. Gente simples e batalhadora, que juntou a economia de  uma vida inteira para abrir um novo negócio ou então tomou empréstimos em bancos para ampliar restaurantes, pousadas e  supermercados e atender  à nova demanda. 

Com a crise de liquidez no estaleiro e a desaceleração do projeto, muitos empresários não resistiram e  fecharam as portas. Muitos outros estão, literalmente, com a corda no pescoço, à beira da falência.  "Foi um  baque muito forte", lamenta  Jailson Bonfim Lima, 38 anos, dono do mercado Cinco Estrelas. 

A mercearia de Jailson fica em Enseada do Paraguaçu, o distrito mais próximo  do estaleiro. No pequeno vilarejo,  de casas simples, ruas estreitas e esburacadas e quase nenhum serviço público, residem cerca de 800 pessoas. Detalhe: quase todas elas trabalharam no estaleiro.  Era a oportunidade que Jailson precisava para crescer e expandir os seus negócios. Tinha um pequeno bar e o transformou  num mercado amplo e sortido. Em dia de pagamento de salários no estaleiro, o local ficava cheio "Fazia fila. Muitos nem pagavam a conta na hora. Eu anotava no caderninho e só recebia 30, 60 dias depois, não me importava", conta.

Com a falta de liquidez  no consórcio construtor do estaleiro, a partir do final do ano passado, começaram as demissões em massa. Resultado: o movimento no Cinco Estrelas minguou. Os produtos encalharam nas prateleiras. Há poucos dias, Jailson jogou fora  R$ 8,5 mil em mercadorias vencidas. Já não consegue pagar em dia a conta de telefone e o aluguel das máquinas de cartão de crédito e débito. Está com o nome negativado.

"O movimento aqui caiu 99%", calcula  Jailson, que estava construindo uma pequena pousada ao lado do mercado. Suspendeu a obra por falta de recursos e de qualquer perspectiva de hóspedes por lá. "Minha irmã tinha uma lanchonete aqui  e fechou. É tudo muito triste", observa.


Depressão econômica

O distrito de Enseada vive hoje o que se pode  chamar de depressão econômica -  uma combinação perversa de desemprego, falência de pequenos negócios e quase nenhum dinheiro circulando pela localidade. Perto dali, na agradável  São Roque do Paraguaçu, o drama é bem parecido.  Que o diga o empresário Manoel dos Santos, conhecido na região como Bira, proprietário  de uma padaria e da pousada Ponto 10 - com 27 apartamentos e considerada uma das melhores da localidade.

No pico das obras de construção do estaleiro, que mobilizou mais de 7,2 mil  trabalhadores, a pousada chegou a fornecer duas mil refeições por dia. A ocupação chegava a 100%.  Na última quarta-feira, apenas um quarto estava ocupado. Pior: o empreendimento está sendo ampliado. Vai ganhar mais 74 apartamentos.

"Já compramos as  tevês  e  os equipamentos de ar-condicionados para os novos quartos, mas tivemos que parar o projeto de ampliação. Também demitimos metade dos nossos funcionários. Tudo isso aqui depende do estaleiro", afirma  José Rodrigo Nascimento Costa,  gerente da Ponto 10.

Bem próximo da pousada funcionava o restaurante Novo Sabor, fechado há um mês. "Não deu para continuar. Com a parada do estaleiro, passamos a trabalhar no vermelho. Achamos melhor encerrar as atividades", conta Oslinda da Silva Cavalcante, que abriu o empreendimento junto com duas irmãs. 

O restaurante  funcionava das 8 às 23 horas, empregava  quatro pessoas  e era frequentado basicamente pelos funcionários do estaleiro.  "Não temos muitas oportunidades aqui. Acreditava que este projeto ficaria para os meus netos e não aconteceu nem mesmo para os meus filhos. Mas não perco a esperança de que tudo seja resolvido em breve".

Fim do consórcio

Afetado pela crise envolvendo a Petrobras e com falta de liquidez, o consórcio construtor do estaleiro Enseada do Paraguaçu -  formado pelas empresas  OAS, UTC Engenharia e Odebrecht  -   encerrou suas atividades neste sábado, 28, por tempo indeterminado.
No ano passado, a Enseada Indústria Naval  (EIN) iniciou a construção de seis navios-sonda para exploração do pré-sal por encomenda da empresa Sete Brasil. Contudo, a Sete, que tem entre seus acionistas a Petrobras, ficou ao menos três meses sem fazer os repasses para a construção dos equipamentos.  A Enseada tem a receber ainda cerca de R$ 600 milhões do Fundo da Marinha Mercante.

Fonte: A Tarde
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