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segunda-feira, 9 de maio de 2016

Opinião: A verdade das mentiras

Foto: Ilustrativa
Por Sergio Marcone Santos
Todos nós mentimos.
A sinceridade, tal qual a honestidade, a felicidade e outras beldades da existência são quimeras, ou seja, nunca as atingiremos plenamente, porém,  persegui-las a ponto de nos aproximar  ao máximo delas seria o ideal.

A  mentira é a vitamina C de nossa existência. Já pensou se fôssemos sempre verdadeiros? Além de chatos, já teríamos nos exterminado como espécie. Tudo que você omite  no falar, no agir, nos gestos soa ao outro como uma aceitação, estabelecendo aí um convívio, um contrato social. Há insuportáveis que se orgulham de coisas do tipo “eu digo sempre a verdade, doa a quem doer”. São sincericidas, cometem sincericídio. Sabe-se logo que se tratam de inconvenientes, imbecis que confundem falta de educação com sinceridade (Quer salvar um sincericida? Ensina pra ele o que são eufemismo e ironia. Coloque-o pra ler Nelson Rodrigues e Oscar Wilde. Mas aviso que geralmente são incuráveis).

Por mentirmos muito, acabamos criando  um grau para as mentiras. Elas podem ser inofensivas, ou do bem. Dizer que o pneu do ônibus  furou para justificar um atraso no trabalho, quando na verdade acordamos tarde porque assistimos àquela série até altas horas, ou responder à pergunta “estou bonita(o)?” com  um “urrum...” que pode significar várias coisas, inclusive nada. Uma mentira muito do mal seria o famoso “eu te amo”  quando na verdade nem a si mesmo você ama.

Mas no quesito pais da mentira encontram-se os políticos. Eles são nosso totem e nosso tabu. Eles vêm quase que automaticamente  à nossa cabeça quando queremos nos julgar distantes da perfídia da mentira (meu Deus, que redundância...). Sim, os políticos conseguem nos redimir quando nos sentimos os maiores enganadores das galáxias. Os políticos elevam a mentira à estatura de paraíso na terra. Eles colocarão a comida em seu prato, te darão TV de 48 polegadas e carro na garagem. Te darão educação e saúde, emprego e uma nega chamada Teresa. Sabemos que nada disso existirá, mesmo assim votamos.

Como a mentira é uma convenção que nos permite, dentre outras coisas, a aceitação do outro, ela passa a ser imprescindível na relação eleitor/eleito. Se fôssemos para ser “verdadeiros” daríamos  nosso voto a pouquíssimos políticos ou a nenhum. Mas não, preferimos aquele jogo cujo final já sabemos.

Há ainda, como aquele enamorado cujas evidências da traição de seu parceiro são visíveis, mas que continua se negando a enxergar as puladas de cerca, os que continuam patinando no gelo do autoengano, uma das muitas máscaras da mentira. Exemplo: embora todas as evidências apontem que houve burla na Lei de Responsabilidade Fiscal durante o governo  da presidente Dilma Rousseff (uma mentira cujo grau está em 11 milhões de desempregados), muitos de seus simpatizantes nega a burla, não raro atrelando a sentimentos típicos dos enamorados: ela  seria vítima (impressionante isso: hoje todo o mundo é vítima de alguma coisa) de traição e de um golpe.

Aqueles que denegam a verdade, relegando-a a algo subjetivo, querem transformar a mentira no que eu chamaria de supramentira, aquilo que transcenderia a verdade e a mentira. Seria a verdade da mentira.  Ora, se não houve abuso da Lei por parte da presidente, toda e qualquer prova em contrário passa a ser “golpe”, embora a  presidente ainda não consiga provar nem apontar de forma material os autores desse golpe, logo, estamos no campo do subjetivo. Deputados até a instaram judicialmente a provar o golpe e ministros da Suprema Corte foram contrários ao discurso de golpe.

Para além da essência da mentira, aqui já entramos em outra área, a da patologia. Uma supramentira dita várias vezes poderia transforma-se em verdade de mentira, ou pode demonstrar uma doença que, nesse caso, o sintoma seria a fé cega no sectarismo ou em qualquer coisa que conseguisse rasgar a Constituição, essa  Carta que fala a verdade ao propor afastamento para aqueles que mentem.

Menti quanto ao título desse texto. Não é meu. É de um livro de Mario Vargas Llosa.

Viram? Até eu minto.

Sergio Marcone Santos é formado em Letras Vernáculas pela UEFS e pós graduando em Comunicação em Mídias Digitais pela Unifacs

*As opiniões emitidas em artigos assinados no site Diário da Notícia são de inteira e única responsabilidade dos seus autores.
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