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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Opinião: Ajudar nem sempre ajuda

Imagem: Ilustratitiva | Piterest
Por Sergio Marcone Santos
Há um consenso humanista de que devemos ajudar o próximo – e o distante também.

Acontece que a complexificação das relações ficou tão grande e enlouquecida que esse ato começou também a tomar novas interpretações de sentido, dada, acredito, à uma falta de parâmetro justamente... humanista para estes e outros termos que contribuem ao bom viver.

Vou esquadrinhar alguns casos que acontecem para que tentemos mapear e tentar abrir uma discussão (ou não):

Vivemos isolados, sozinhos, embora tenhamos 5.000 amigos nas redes sociais. Como todo ser, temos problemas de várias ordens: financeiras, emocionais, familiares, existenciais etc. etc. Eis que encontramos alguém para desabafar e contamos alguns acontecimentos que nos incomodam. Qual não é a surpresa quando o ouvinte emite uma opinião e é automaticamente mal visto por nós, confessores.

Na verdade, o que esperávamos era somente uma forma de purgar nossos males sem ter que desembolsar um real sequer com um analista profissional. E não raro o amigo que ouviu e opinou é tido como intrometido, chato, que “não consegue nem resolver seus próprios problemas quanto mais os meus”.

Outro caso é o da autossuficiência. Achamos que sabemos sempre de tudo. Desde consertar a pia que entupiu até à resolução do teorema de Pitágoras. Acontece que poucos seres conseguiram a proeza de serem bons em todas as áreas (dizem que Leonardo da Vinci foi um deles). Os autossuficientes detestam perguntar a outrem como se faz algo, e quando o que eles se meteram a fazer dá errado, prontamente apontam alguém como o culpado.

Há ainda os que precisam de muita ajuda, mas se negam a pedi-la a quem quer seja. Desconfio que estas pessoas creem piamente que um belo dia acordará e tudo estará em paz, com problemas sanados. Elas detestam demonstrar “fraqueza”. Em público possuem sempre ideias perfeitas, posições firmes sobre qualquer assunto. Mas deitam e não conseguem dormir.

Esses pequenos exemplos podem ter suas causas em várias características do ser. Egoísmo, orgulho, soberba etc. Mas todas elas têm um só DNA: a burrice.

Em Tomás de Aquino e seu conceito de prudentia (que é considerada a virtude cardeal), encontrei a resposta para um dos dons espirituais elencados pelo apóstolo Paulo:  o discernimento.

A “prudência” a que Aquino se refere não é com o mesmo sentido que a usamos hoje. Ele fala da sabedoria para tomarmos as decisões certas. Esse ato está intimamente ligado à inteligência, e tem na memória um aliado.

Ele diz “[para] que o homem tenha solicitude e afeto para com aquilo que quer recordar, pois onde não há interesse e amor, não se fixam as impressões na alma”. Nessa assertiva Aquino tenta combater o fato de que tendemos a memorizar coisas ruins.

Discernir é realmente um dom. Saber o que é certo e errado, e em seguida tomar decisões, optando sempre pela que privilegie o Amor, portanto a certa, advém da ligação ininterrupta, portanto íntima com o divino, embora estejamos o tempo inteiro propensos  a nos entregar à “senhora” mente que não raro busca os parâmetros de decisões em sentimentos de estaturas menores, como a ambição, a traição, o rancor e outros pigmeus.

Daí, cai como uma luva o entendimento  do francês Emanuel Carrère  em seu livro “O Reino” (Alfaguara, 2016): quando não precisarmos mais nos vigiar, ou seja, ficar o tempo todo prestando atenção na dupla prudentia/discernimento, aí sim estaremos no Reino de Deus (ou Bodhisattva para os budista­s)

O que isso tem que ver com os casos que elenquei acima? Tudo.

Todas aquelas situações exigem de nós a prudentia de Aquino para tomarmos a decisão correta não só quando aqueles fatos acontecerem com os outros, mas também conosco.

Qual a decisão certa a tomar está no topo para tudo aquilo ali, já que quem nos procurou para falar de seus problemas ou nos problemas que enxergamos (e vivemos), carecem desse discernimento.

Ajudar virou uma arte. Foi-se o tempo em que bastava emprestar um dinheiro ou um ombro para chorar para que a satisfação se instalasse.

Queremos uma ajuda que transcenda o ato de ajudar.

Dizer “não” também ajuda e é um ato de Amor, sobretudo porque em muitos casos queremos tirar do outro, com nossos conselhos, o direito que ele tem à ilusão, ou seja, de continuar com mazelas para ter uma “novidade de vida”, com direito até de ser coitadinho.

A prudentia e o discernimento são eternos. Inclusive quando chegarmos ao Reino de Deus, com a vantagem de que não precisaremos mais vigiá-los.

Sergio Marcone Santos é formado em Letras Vernáculas pela UEFS e pós graduando em Comunicação em Mídias Digitais pela Unifacs

*As opiniões emitidas em artigos assinados no site Diário da Notícia são de inteira e única responsabilidade dos seus autores.
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