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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Opinião: Generosidade S/A

Imagem: Ilustrativa | Uol Estilo
Por Sergio Marcone Santos
A poltrona estava apertada para seus mais de 100 quilos, mesmo assim Alfred Hitchcock (1899-1980) voou dos Estados Unidos até Mônaco para fazer um convite um tanto ousado: ele queria que a atriz Grace Kelly (1929-1982) estrelasse seu próximo filme. Grace havia abandonado a carreira de atriz, estava casada com o príncipe Reinier III e não tinha uma vida lá muito feliz. Hitch sabia disso e foi oferecer a ela uma salvação: o cinema.

No mundo das artes existem vários e vários casos desse naipe. Um artista resgatando outro do ocaso, do esquecimento. Seria uma espécie de generosidade com valor agregado já que o intuito de trazer alguém de volta, também daria um bom retorno ao benfeitor, flertando com o que parece ser um negócio, por isso “S/A”. No caso acima, ter uma princesa com um dos rostos mais lindos do mundo (em algumas cenas de “Janela Indiscreta” (1954), Grace está a cara da Xuxa), que estava infeliz, detentora de certo talento, num excelente filme, dispensa comentários no quesito generosidade S/A.

No Brasil também temos casos semelhantes e Caetano Veloso também já teve momentos altruístas antes de tentar ser censor de biografias. “Menino do rio”, música interpretada por Baby do Brasil, na época Baby Consuelo, é um deles. Depois do relativo sucesso e do fim do grupo “Novos baianos”, Baby experimentava aquele intervalo doloroso na carreira. O mano Caetano não só compôs a bela canção, como a Rede Globo a colocou na abertura da novela “Água Viva”, de Gilberto Braga, em 1980. Tudo ficou odara.

Ele repetiria a dose convidando Elza Soares, esquecida e marcada pelos dribles etílicos de Mané Garrincha (1933-1983), para fazer uma participação na música “Língua”, do disco “Velô” de 1984. “O que quer e o que pode essa línguaaaaaaaaaaaa”. Lembram? Ela hoje é a “mulher do fim do mundo”.

Já “Malandragem” foi composta por Cazuza e Frejat pensando exclusivamente na cantora Angela Ro Ro. Eles a adoravam e nada melhor para artistas que fazer odes às suas musas. Música pronta, ligaram para Ro Ro e mandaram a canção. A cantora, ao ouvir os primeiros versos, a recusou roucamente, provavelmente com um scotch na mão: “Essa letra não tem nada a ver comigo. ‘Quem sabe ainda sou uma garotinha’? Never!!”.

A carreira de Ângela sempre foi confundida com sua vida pessoal. Suas músicas não raro são autobiográficas. Amores rasgados, “barracos”, fogueira. Nada combinava com uma garota de meias três-quartos esperando um ônibus da escola, ela pensou.

Só que no meio do caminho havia uma Cássia, a Eller. Foi ela quem gravou “Malandragem” e estourou no Brasil inteiro em 1994. Angela, arrependida, correu pro telefone: “Agora eu quero gravar!!”, e nunca mais deixou de cantá-la em seus shows. Uma prova de que a generosidade pode ser criança e não conhecer a maldade.

Houve também a fusão explosiva entre Marcelo Nova e Raul Seixas (1945). Alguns críticos logo tacharam o roqueiro ex-Camisa de Vênus de ser um aproveitador, afinal, o moço do disco voador era uma lenda. Mas é sabido que quando Nova o encontrou, aquele que havia mandado Al Capone se orientar estava debilitado devido ao uso excessivo de álcool, dentre otras cositas. O fato é que passaram a se apresentar juntos e a dar entrevistas (a com Jô Soares é imperdível), culminando no disco “A panela do diabo”. Raul fez sua última metamorfose não-ambulante ao morrer em 21 de agosto de 1989, três dias depois de o LP ser lançado. Marcelo jamais dissociará sua imagem dessa generosidade S/A.

Encerro com mais dois cases que considero importantes: Elis Regina (1945-1982), que sempre buscava novos talentos para gravar, nos legou Milton Nascimento, o Bituca (sem comentários).

E Maria Bethânia deu à faixa-título de um disco famoso seu – “Álibe” (1978) –, uma canção de um desconhecido alagoano de forte influência jazzeira chamado Djavan (que, já famoso, atuou e lançou a atriz Patrícia Pillar no filme “Para viver um grande amor” em 1984, numa espécie de generosidade S/A de alcova).

Ser generoso é massa.

Sergio Marcone Santos é formado em Letras Vernáculas pela UEFS e pós graduando em Comunicação em Mídias Digitais pela Unifacs

*As opiniões emitidas em artigos assinados no site Diário da Notícia são de inteira e única responsabilidade dos seus autores.
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