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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Opinião: Imitação da vida

Foto: Ilustrativa | Demodelando
Por Sergio Marcone Santos
Todos nós imitamos alguém. Isso é até uma prerrogativa para quem está iniciando uma carreira. Experts falam para quem gosta de escrever, cantar ou que queira ser um bem sucedido empresário, que siga os passos de alguém que já se deu bem na vida. As livrarias estão cheias de biografias dessas figuras. Stevie Jobs, Abílio Diniz e até marqueteiros políticos são pessoas que nos inspiram a seguir seus passos, na esperança de que nos tornemos seus avatares.

Uma de nossas maiores influências vem de nossos pais. Não é à toa. Nascemos deles, fomos gerados por e através deles, logo, carregamos em nós um pouco de tudo aquilo, daqueles seres. Nosso pai e nossa mãe foram/são nosso cosmos, nosso universo. Deles tiramos a honestidade, o amor, ou a cólera, a loucura, enfim, o que temos para hoje.

Na revista “Piauí” desse mês há uma excelente reportagem sobre a transmissão genética da esquizofrenia (“Mal de família”, de Siddhartha Mukherjee). E é dessa matéria que tiro algumas informações.

A esquizofrenia é herdada a partir de nossa baixa imunidade por células que devem “limpar” as sinapses do cérebro e ela vem de pais, irmãos. Essa hereditariedade diz respeito à natureza da instrução que permite a um organismo construir um psiquismo, ou seja, não é simplesmente “puxar” tal característica de um parente, mas sim da variante que determina essa herança genética.

Em 1911, o psiquiatra suíço-germânico Eugen Bleuler reconheceu que pacientes esquizofrênicos em geral tinham parentes de primeiro grau também esquizofrênicos. Um século de pesquisas depois atestou seu vaticínio. Uma região de genomas estudados – chamada MHC – contém centenas de genes tipicamente associados ao sistema imunológico, além de ser o repositório central da maioria de nossos genes, diz a revista.

Sistema imunológico? Isso!! Em nosso cérebro, células são incumbidas de podar nossas sinapses (contatos de neurônios onde ocorre a transmissão de impulsos nervosos de uma célula para outra), e uma deficiência nessa poda está intimamente ligada à esquizofrenia.

Somos sempre frutos do (des)equilíbrio. Há uma proteína estruturada, cooptada pelo sistema nervoso, para marcar as sinapses que devem ser destruídas: “É morrendo que nós crescemos”, diz o psiquiatra Hans. Daí em diante, as comedoras de carniça do cérebro, as micróglias, ficam responsáveis por lançar seus tentáculos e deglutir o que deve “desaparecer”.

Mas qual o critério para essa marcação feita pela proteína estruturada? Sabe-se que as sinapses são uma espécie darwinista, ou seja, competem entre si e as mais fortes vencem. Eis um novo desafio. Sabe-se que dentro do MHC existe o gene C4 e ele comprova que “o risco de esquizofrenia tinha uma fortíssima correlação com a hereditariedade da variante” dele (do gene), e que pode ser “uma doença de excesso de poda e [a poda] causa todos os difusos sintomas da doença – a psicose, o colapso cognitivo, o vazio e o retraimento”.

Cabe ainda dizer que as podas, bem como o surgimento da esquizofrenia, acontecem na segunda e terceira décadas de vida, pois na primeira década não há podas para que possamos ser “livres” para formar nosso sistema cognitivo.

Qualquer semelhança entre o filme “Matrix” e essa “autonomia cerebral” não é mera coincidência.

O cérebro, assim como o mar, é um mundo à parte.

Sergio Marcone Santos é formado em Letras Vernáculas pela UEFS e pós graduando em Comunicação em Mídias Digitais pela Unifacs
*As opiniões emitidas em artigos assinados no site Diário da Notícia são de inteira e única responsabilidade dos seus autores.

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