Getúlio Vargas chegou ao poder em 1930, depois de liderar uma
revolução. Foi eleito em 1934. Em 1937, fechou o Congresso e se
transformou em ditador. Mesmo assim, era adorado pelas massas, que
acompanhavam, empolgadas, a transformação do Brasil em um país com
grandes indústrias e leis trabalhistas justas – foi ele quem criou o
salário mínimo, por exemplo. Ao final da Segunda Guerra, em 1945, quando
a ditadura dos alemães e dos italianos foi derrotada pelas democracias
da Europa e dos Estados Unidos, não fazia mais sentido ter um ditador no
poder. Getúlio convocou eleições e voltou para São Borja, no Rio Grande
do Sul. Mas em 1951 ele voltou à capital, o Rio de Janeiro, reeleito,
em grande estilo. Em 1954, Getúlio foi pressionado a deixar o poder.
Parecia que ele não tinha escolha, a não ser renunciar. Mas ele tinha,
sim. Às 8h30 da manhã do dia 24 de agosto, pegou seu Colt calibre 32 com
cabo de madrepérola e, sentado na cama, de pijamas, apontou contra o
próprio peito e atirou. Como é possível que um ditador tão popular que
consegue se eleger de novo termine desse jeito?
A frase mais famosa da carta-testamento explica: “Saio da vida para
entrar para a história”. Era isso mesmo. Se vivesse, Getúlio e sua
família teriam que enfrentar uma humilhação pública tão grande que
acabaria com a imagem que ele demorou a vida toda para construir. Ao se
matar, escapou de tudo isso e virou um grande mito. Para entender por
que ele estava tão perto da humilhação, basta pensar na madrugada de 5
de agosto, 20 dias antes de ter se matado. Era pouco depois da
meia-noite, e o maior inimigo de Getúlio, o empresário e político Carlos
Lacerda, entrava em sua casa, na rua Toneleros, em Copacabana. Alguém
atirou contra ele, e dois disparos mataram o homem que o acompanhava, o
major da Aeronáutica Rubens Vaz. Um projétil acertou o pé de Lacerda.
Muita gente não estava satisfeita com Getúlio. Um grupo de militares e
empresários dizia que, com suas medidas populistas, o presidente queria
levar o país para o comunismo. Aliás, essas mesmas pessoas disseram a
mesma coisa quando, em 1964, derrubaram o presidente João Goulart.
Nenhum adversário pegava tão pesado quanto Carlos Lacerda. Todas as
evidências apontavam para o envolvimento de Getúlio e sua turma no
atentado.
Evidências concretas
Parecia difícil provar a participação do governo nos tiros que
mataram o major Vaz. Mas não era. Assim que as investigações começaram,
no dia 6, um motorista de táxi apareceu na polícia dizendo que tinha
levado um membro da guarda presidencial, Climério de Almeida, para o
local do crime. Em vez de se explicar, Climério desapareceu. No dia 13, o
pistoleiro Alcino do Nascimento foi preso e confessou ter atirado em
Lacerda por ordem de Climério. O caldo engrossou de vez quando Alcino
disse à polícia que Climério estava agindo sob o comando de Lutero
Vargas, filho de Getúlio. No dia 18, Climério foi preso. Com ele estavam
35 mil cruzeiros, e as notas eram da mesma série que já tinham sido
encontradas com Alcino e com Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal
do presidente. No dia 21, o vice-presidente, Café Filho, sugeriu que os
dois renunciassem. No dia 22, um grupo de brigadeiros do Exército
publicou um manifesto pedindo a mesma coisa. Getúlio disse que jamais
faria isso.
À meia-noite do dia 24 de agosto, os comandantes militares mandaram
avisar o presidente que não havia mais volta. Se ele não deixasse o
cargo por bem, seria deposto pela força. Exausto, Getúlio disse que
marcaria uma reunião ministerial no dia seguinte. O general Mascarenhas
de Morais, que ainda se mantinha ao lado do presidente, insistiu em
fazer o encontro imediatamente. Às 4 da manhã, enquanto os ministros
discutiam sem chegar a nenhuma conclusão, Getúlio abriu a agenda pessoal
e rabiscou assim: “Determino que os ministros militares mantenham a
ordem pública. Se a ordem for mantida, entrarei com um pedido de
licença”.
O fim
Depois da reunião, sozinho em seu quarto no Palácio do Catete,
Getúlio não conseguiu pregar o olho. Foi procurado pela mulher e os
filhos pelo menos três vezes entre o final da madrugada e o começo da
manhã. O ministro da Justiça, Tancredo Neves, mandou para ele uma nota
oficial em que o presidente se licenciava até que as investigações
terminassem. Era só assinar, mas Getúlio nem quis ler. Quando soube que
seu filho mais novo, Benjamin, seria preso por participar do atentado,
ele se trancou em seu quarto. Às 8h30, um tiro ecoou pelo palácio.
“Getúlio tinha consciência de seu significado histórico. Seu último
gesto precisa ser entendido dentro dessa dimensão”, afirma o historiador
Jaime Pinsky, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Entre renunciar e encarar um longo processo na Justiça, ele preferiu
virar mártir. Sua última artimanha política deu certo. Menos de um mês
depois de sua morte, o caso do atentado foi encerrado e seus dois filhos
suspeitos, Benjamin e Lutero, acabaram inocentados..
E assim Getúlio salvou sua imagem para sempre. Assim que souberam da
morte, multidões saíram às ruas em todo o país. Enfurecidos,
manifestantes destruíram a Tribuna da Imprensa, o jornal de Carlos
Lacerda. Uma massa humana de 100 mil pessoas, a maioria chorando
compulsivamente, acompanhou o caixão do presidente. Cerca de 3 mil
pessoas sofreram desmaios, mal-estares e crises nervosas. Velado no
palácio onde vivia, o presidente cumpria, assim, a promessa feita dias
antes: “Só morto sairei do Catete”.
Dia 24 - As últimas horas do presidente
0h - O minidtro da Guerra, general Zenóbio da Costa, chega ao Palácio
do Catete. Traz um ultimato assinado por 27 generais, exigindo a
renúncia
0h30 - Da sala de despachos, Getúlio manda chamar os ministros. Pega
em uma gaveta uma folha datilografada, assina-a a aguarda no bolso. Os
demais não sabiam, mas era a carta-testamento. O presidente sobe ao
quarto
1h - Ao redor do Catete, barricadas e soldados armados a postos para
evitar uma invasão. Getúlio, fumando seu indefectível charuto, desce à
sala de despachos, pega a caneta-tinteiro que estava sobre sua mesa de
trabalho e a entrega ao ministro da Justiça, Tancredo Neves, pedindo que
ele a guarde como lembrança daqueles dias
3h - Getúlio reúne o ministério. (Dos 12 ministros, um - Vicente Rao,
das Relações Exteriores - não compareceu.) Além deles, estavam
presentes a filha do presidente, Alzira, a esposa Darcy e os filhos
Lureto e Manuel Antônio. Lá fora, aviões da Aeronáutica davam rasantes
sobre o Catete
4h - Os ministros não chegam a um consenso. Getúlio anota em sua
agenda: "Já que o ministério não chegou em uma conclusão, eu vou
decidir: (...) entrarei com um pedido de licença
4h20 - Zenóbio sai com pressa para anunciar a decisão de Getúlio aos
militares. O presidente sobe ao quarto para dormir, enquanto Tancredo
escreve uma nota para a população.
4h45 - O ministro Oswaldo Aranha, Alzira e o próprio Tancredo sobem
ao quarto para mostrar a nota a Getúlio. O presidente os recebe de
pijama de mangas compridas, na ante-sala de seu quarto. O país é
comunicado, pelo rádio, da decisão presidencial.
6h - Dois oficiais chegam ao Catete, com uma intimação para Benjamin
Vargas, irmão de Getúlio. Ele é acusado de planejar o atentado contra
Lacerda. Ele se recusa e deixar o palácio. Sobe ao quarto do irmão, o
acorda e conta o que aconteceu.
7h - O telefone toca. É o general Armando de Morais Âncora, que diz a
Benjamin que o pedido de licença não era suficiente. Os militares
querem o afastamento imediato do presidente.
7h30 - Benjamin vai ao quarto e comunica a reação dos militares. Getúlio diz que a situação é grave.
8h05 - Contra seu costume, o presidente sai do quarto de pijama e
desce até o gabinete de trabalho. Um assistente percebe que ele volta
com algo volumoso no bolso: é um revólver Colt calibre 32.
8h15 - Como fazia todas as manhãs, o barbeiro Barbosa entra no
quarto. O presidente o dispensa. O filho Lutero descansa em um sofá da
ante-sala do quarto.
8h30 - O presidente senta na cama, põe o revólver na altura do peito e
puxa o gatilho. O tiro acorda Lutero, que é o primeiro a entrar no
quarto. Depois entram dona Darcy e o médico Flávio Miguez de Mello.
Getúlio tem meio corpo para fora da cama e está morrendo.
8h35 - A arma ficou sobre a cama. Na mesinha de cabeceira, a carta-testamento. Ele morreria deitado, minutos depois.
Um baixinho vaidoso
Quando o gaúcho Getúlio Vargas nasceu, em 1882, dom Pedro II ainda
governava o país. Quando morreu, em 1954, o Brasil era uma república
industrializada. Em seus 72 anos de vida, Getúlio ainda foi deputado e
governador do Rio Grande do Sul. Ninguém ficou tanto tempo na
presidência quanto ele, 28 anos.
Carismático, ele cuidada muito bem de
sua imagem. Os fotógrafos tinham ordem de retratá-lo sempre de baixo
para cima, para disfarçar sua altura. Ele só tinha 1,60 m, tinha um
rosto redondo e era barrigudo. Mas era vaidoso. Nunca viajava sem uma
maleta com cremes, loção de barba e meias de seda. Seu charuto virou
marca registrada. Além disso, Getúlio era um grande conquistador. Sua
amante mais famosa foi a vedete Virginia Lane, que era conhecida por ter
as pernas mais bonitas do Brasil.
Saiba mais
• O Segundo Governo Vargas: 1951-1954, Maria Celina Soares de Araújo, Zahar, 1982. Ajuda a entender a crise de agosto de 1954.
• A Era Vargas, José Augusto Ribeiro, Casa Jorge Editorial, 2001. São
três volumes que contam a vida do presidente, da chegada ao poder ao
suicídio
Fonte: Aventuras da História
