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terça-feira, 23 de outubro de 2018

Alunas do Colégio Militar de Salvador relatam assédio de colegas, professores e militares

Foto: Reprodução
Diversas alunas e também ex-alunas do Colégio Militar de Salvador (CMS), no bairro da Pituba, tem relatado assédios sofridos no ambiente escolar. Os assediadores seriam outros alunos, seus colegas, professores e militares da instituição. A maior parte dos casos ganhou repercussão fora dos muros da escola a partir de uma mobilização no Instagram. As estudantes pediram que colegas compartilhassem seus relatos de “machismo, homofobia e racismo” e as mensagens vão desde a orientação para que meninas usem sutiã na cor neutra "pra não chamar atenção dos superiores" a casos de intimidação e assédio sexual. A história sobre o sutiã, inclusive, já foi alvo de reclamações de alunas em dezembro de 2016 (relembre aqui). Uma das vítimas nesse quesito é a ex-aluna Gabriela Galeno, de 24 anos.

Ela lembra que quando estava na 8ª série, com seus 14 para 15 anos, foi abusada por um soldado na enfermaria. Com fortes dores de cabeça, ela foi atendida pelo militar, que lhe receitou um remédio e depois tentou assediá-la. "Eu tenho um sono muito ruim e nesse dia eu apaguei, acordei com a sirene do CMS tocando. Eu faço reflexão de que talvez ele tenha me dado o remédio errado. (...) Quando eu acordei, eu percebi que a enfermaria estava toda vazia e saí correndo porque eu tinha transporte. Eu estava tão grogue e aí de repente o soldado chegou, com a roupinha de saúde e tal, me agarrou por trás, querendo me forçar, me beijar e aí eu fiquei: 'meu Deus, que é que está acontecendo?'.

Graças a Deus eu consegui sair", detalha Gabriela. A jovem lembra que ao sair do local, logo se deparou com o major responsável por sua companhia e desabafou sobre o atentado. Filha de pai militar, ela também dividiu a agressão com a família, de quem recebeu todo o suporte. Seu pai teve que levar o caso ao comandante dele, que repassou para o comandante da companhia dentro do quartel general até que uma instância maior abriu uma sindicância. "Eu tive que depor, meu pai teve que depor, acho que chamaram o cara e eu passei quase um mês indo pra escola sem plaqueta [acessório que contém o nome de guerra dos alunos] pra que ele não me identificasse". Embora fosse orientada a não compartilhar o caso com outros colegas – além de seu pais, apenas dois amigos e uma jovem que passou pela mesma situação com o soldado sabiam do assédio –, Gabriela lembra que ouviu "muita piadinha" de médicos, soldados e autoridades que passavam por ela e a reconheciam como a aluna que tinha denunciado o militar.

Felizmente, no seu caso, ela conta que o soldado foi afastado da enfermaria e, em seguida, exonerado do cargo. Mas nem toda denúncia teve solução. Vítima de bullying, uma ex-aluna de 22 anos, que prefere não se identificar, lembra que seu caso nunca foi resolvido. De acordo com ela, quando estava na 8ª série, rabiscaram seu nome no banheiro da escola, acompanhado de xingamentos como "prostituta" e "vagabunda". A sindicância chegou a ser aberta, mas até que ela saísse da escola, cerca de três anos depois, ninguém foi punido. "Essa sindicância é só uma maneira deles falarem que vão fazer alguma coisa, mas eles vão abafar o caso. Inclusive, as meninas já estão falando que eles estão com medo de manchar a imagem do colégio, sem propor soluções", critica. De fato, as estudantes temem que a escola não tome qualquer providência ou até que elas sejam alvo de represália por exporem os casos. O Bahia Notícias tentou contato com algumas adolescentes ainda na instituição, mas elas preferiram se resguardar. Nas redes sociais, no entanto, os relatos foram mantidos. Além de denunciar os casos e buscar apoio, o objetivo da ação seria demonstrar que existe assédio mesmo em instituições mais rigorosas, e que a intenção não seria culpar o colégio. Elas comentam casos de professores que se aproveitavam dos momentos em que alunas se aproximavam para tirar dúvidas e disparavam olhares intimidantes para seus seios, militares que perseguiam meninas lésbicas ou que acreditavam ser lésbicas, aluna sendo levada sozinha para a sala de um oficial para assistir vídeo sobre “como ser uma mulher discreta”, entre outras ações. Também ex-aluna, Aymée Francine, de 24 anos, aponta o quanto o comportamento das meninas era controlado para evitar reações nos meninos e nos homens.

Um exemplo que ela traz é sobre a farda de Educação Física, pois as meninas tinham que usar dois shorts para que o debaixo não chamasse atenção para o desenho do corpo. Outro caso mais extremo desse tipo de postura foi quando cortaram o rugby feminino da grade de atividades. Depois do treino, as meninas precisavam tomar banho no vestiário, por volta das 17h, e nesse horário os soldados homens estavam pelo local. "Aí começou a ter diversos casos de assédio e a escola ao invés de fazer alguma coisa em relação a isso, proibiu de ter rugby lá dentro. Eu lembro que eu parei de treinar por causa disso porque eu tinha 15 anos, minha mãe não queria que eu fosse treinar em outro lugar", comenta. Já a ex-aluna Fernanda Oliveira, 24 anos, lembra que era comum que alunos desse tapas na bunda das meninas quando elas passavam. Ela reforça que não chegou a denunciar o caso, mas que acredita que o movimento lançado pelas estudantes é importante. "Hoje eu lembro disso e me sinto mal por não ter conseguido ser incisiva na época e ter feito isso parar. Eu reagia pedindo para que eles parassem, mas nunca cheguei a falar com nenhuma autoridade. Não sei se outras meninas tentaram falar sobre isso.

 Acho que talvez a gente nem soubesse como reagir direito naquela época. Vendo as meninas que estudam lá atualmente se manifestando dessa forma, com essa consciência toda já tão novinhas, dá muito orgulho!", defende. O BN procurou a assessoria do Colégio Militar de Salvador, mas não obteve resposta. Em nota encaminhada ao site Aratu Online, a instituição afirma que “desconhece e repudia a participação de professores e militares em atos ou propagação de conteúdos sobre assédio moral e sexual” e que, mesmo assim, instaurou uma sindicância para apurar o fato.

A nota diz ainda que “os responsáveis por alunos serão comunicados sobre o posicionamento [do estabelecimento] com relação à denúncia apresentada, bem como as ações que serão tomadas” e que “o Sistema Colégio Militar é sério e competente”. “Nossos alunos são educados conforme os valores, costumes e tradições do Exército Brasileiro”.

Fonte: Bahia Notícias
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