Comentário sobre “nove dedos” e erro ao citar nome de Ana Clara repercutem após debate da Globo

Episódios envolvendo a morte de uma menina de cinco anos e uma referência à deficiência física do presidente ganharam destaque no último debate antes do segundo turno; análises apontaram diferenças de desempenho e comunicação entre os candidatos.

Imagem: Rede Globo 
O último debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado na noite de sexta-feira (23), na TV Globo, foi marcado por discussões sobre o custo de vida, políticas sociais e segurança pública, mas também por dois episódios que concentraram a atenção do confronto: a referência de Flávio aos “nove dedos” do presidente e o questionamento de Lula sobre o caso da menina Ana Clara, morta aos cinco anos após ser atingida por um disparo de fuzil.

A disputa, mediada pelo jornalista César Tralli, ocorreu às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25). Embora os candidatos tenham apresentado propostas para áreas como economia, infraestrutura e programas sociais, os embates pessoais também ocuparam espaço importante no encontro.

Expressão “nove dedos” provoca reação de Lula

Um dos momentos de maior repercussão aconteceu quando Flávio Bolsonaro, ao criticar uma proposta de Lula para o transporte público, afirmou que o presidente “dá com uma mão e tira com os nove dedos”, em referência à perda de um dedo da mão esquerda em um acidente de trabalho, quando Lula tinha 17 anos.

O presidente reagiu à declaração e afirmou que não aceitaria ser tratado daquela maneira. Lula ressaltou sua trajetória como trabalhador e relacionou o episódio à realidade de brasileiros que sofrem acidentes durante o exercício profissional.

Após a cobrança, Flávio pediu desculpas. “Lula, se eu te ofendi, eu te peço desculpa de verdade”, declarou o senador, que também cobrou retratações do adversário por outras acusações feitas durante o debate.

O episódio gerou troca de acusações e pedidos de direito de resposta. Lula chamou Flávio de “miliciano”, expressão contestada pelo senador, que obteve direito de resposta em razão da declaração. 

Caso Ana Clara leva tema da segurança pública ao centro do debate

Outro momento delicado ocorreu durante a discussão sobre segurança pública. Lula mencionou o caso de Ana Clara Gomes Machado, menina de cinco anos morta em 2021, em Niterói, no Rio de Janeiro, após ser atingida por um disparo de fuzil.

A mãe da criança, Cristiane Gomes da Silva, acompanhava o debate presencialmente. Lula questionou Flávio sobre sua atuação como advogado do policial militar Bruno Dias Delaroli, apontado como suspeito de efetuar o disparo que matou a menina.

O presidente cobrou explicações sobre a atuação do senador no caso, relacionando o episódio à discussão sobre violência policial e segurança pública.

Em sua resposta, Flávio manifestou solidariedade à mãe e afirmou que a morte da criança foi uma tragédia. O senador sustentou que o episódio ocorreu durante um confronto armado em uma região dominada pelo tráfico de drogas e disse acreditar que o policial que defendeu não foi o autor do disparo.

Ao se dirigir à mãe da menina, Flávio confundiu o nome de Cristiane com o da filha, Ana Clara, um erro que também repercutiu após o debate (veja aqui).

Analistas divergem sobre o desempenho dos candidatos

As avaliações publicadas após o encontro destacaram aspectos diferentes da atuação dos dois presidenciáveis, incluindo a apresentação das propostas, o controle do tempo e a repercussão dos ataques pessoais.

O consultor e pesquisador Renato Meirelles atribuiu nota 2 a Flávio Bolsonaro. Em sua análise, o senador demonstrou maior preparação para o formato televisivo e abordou temas ligados ao orçamento das famílias, como salários e preços dos alimentos. Entretanto, Meirelles avaliou que a referência aos “nove dedos” e a discussão envolvendo Ana Clara prejudicaram a mensagem que o candidato procurava transmitir.

Já o pesquisador Pablo Ortellado atribuiu nota 3 tanto a Lula quanto a Flávio. Sobre o presidente, apontou dificuldades no início do debate, no controle do tempo e na agilidade das respostas, mas destacou sua atuação ao abordar direitos sociais. Em relação ao senador, ressaltou a tranquilidade, a articulação e a apresentação das propostas, embora tenha observado momentos em que a preparação excessiva poderia soar artificial.

As avaliações são opiniões dos analistas e refletem critérios próprios de interpretação do desempenho dos candidatos, não uma medição objetiva de preferência eleitoral.

Custo de vida e propostas também estiveram em pauta

Além dos episódios que ganharam maior repercussão, o debate abordou assuntos diretamente relacionados ao cotidiano da população, como salário mínimo, endividamento das famílias, preço dos alimentos, apostas on-line, saúde pública e segurança.

Flávio concentrou parte de suas intervenções nas dificuldades econômicas enfrentadas pelos brasileiros, criticando o custo de vida e os gastos públicos. Entre as propostas apresentadas, mencionou medidas para renegociar dívidas e concluir obras paralisadas.

Lula, por sua vez, defendeu ações de seu governo e destacou políticas sociais e investimentos públicos. Os candidatos também discutiram o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS), a atuação do governo federal durante a pandemia e medidas para enfrentar a violência.

Apesar da presença de propostas, as trocas de acusações voltaram a ocupar parte significativa do confronto, especialmente nos momentos dedicados a temas livres. 

Debate ocorreu na reta final da eleição

O encontro da Globo foi o último debate entre os dois candidatos antes do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro. Com a votação se aproximando, a atenção se voltou para a repercussão dos episódios nas redes sociais e para a capacidade das campanhas de dialogar com os eleitores ainda indecisos.

O debate, por si só, não permite concluir se houve mudança nas intenções de voto. A repercussão de momentos específicos pode variar entre diferentes grupos de eleitores, e o impacto eleitoral dos episódios dependerá de outros fatores, incluindo a avaliação dos programas de governo e a decisão individual de cada votante.

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro chega, assim, à votação após uma campanha marcada por divergências sobre economia, segurança pública, políticas sociais e pelo uso recorrente de ataques pessoais entre os adversários.

Fontes: Folha de S.Paulo, UOL, A Tarde e Exame.

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