Escritores do interior, editoras independentes e novas visões sobre a educação mostram a força da produção literária baiana
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| Crédito: Gustavo Rozario |
A produção literária baiana ocupa espaços que ajudam a superar um dos maiores desafios de quem escreve longe das grandes capitais: fazer o livro circular. A programação inclui a Casa dos Autores e Autoras Baianos e o projeto Vozes da Bahia, que selecionou 30 autores de diferentes territórios para a programação da Flica, reunindo escritores de diferentes gerações, regiões e trajetórias. A iniciativa da Fundação Pedro Calmon começou na Bienal do Livro, onde mais de 200 escritores baianos apresentaram seus trabalhos.
De Euclides da Cunha, o dramaturgo, diretor teatral e escritor Carlos Carneiro trouxe histórias que carregam a memória de Canudos. Em Mané Vermei um sertanejo de Canudos apresenta um descendente dos sobreviventes da guerra, inspirado em uma pessoa real, que conhece os sinais da natureza e guarda a sabedoria popular da Caatinga. Já Entre a Cruz e a Espada mistura história e ficção para narrar o romance entre Maria Rosa, seguidora de Antônio Conselheiro, e um capitão do Exército, personagens em lados opostos do conflito. “Mané Vermei traz várias vozes e vozes que permaneciam no anonimato, que não eram ouvidas, porque o sertanejo quase não é ouvido, está à margem da academia, à margem desse campo literário”, denunciou.
A escritora, jornalista e professora Joalva Menezes de Moraes também aproveitou sua presença na Flica para destacar o conhecimento produzido na Bahia. Depois de acompanhar a festa por anos como jornalista, participa pela primeira vez como autora, apresentando Como tornar uma Escola Decolonial? Reflexões sobre possibilidades e caminhos, livro nascido de sua pesquisa de doutorado na Universidade Aberta de Portugal. A obra questiona a predominância de referências europeias na educação e propõe reconhecer os saberes brasileiros, especialmente os afro-brasileiros e indígenas. Joalva defende até uma mudança no vocabulário: em vez de “nortear”, prefere “sulear”, expressão que convida a olhar para o conhecimento produzido no Sul. “Eu não quero mais falar que eu vou nortear, eu quero sulear, que é olhar pra aqui pra baixo, porque a gente produz muito e com sabedoria”.
Se Joalva chama atenção para quem produz conhecimento, a escritora e editora Yara Fers convida o público a experimentar o livro de outra maneira. À frente da Arpillera, editora independente de Arembepe, em Camaçari, ela produz exemplares artesanais, com costuras aparentes, tecidos, relevos, recortes e papéis de diferentes texturas. Cada livro é numerado e o trabalho manual transforma a publicação em uma peça singular. Com mais de 100 títulos lançados desde 2022, a editora participa pela primeira vez da Flica, depois de tentar conquistar espaço em edições anteriores. “É diferente eu colocar esse livro numa foto no Instagram e a pessoa chegar e pegar e sentir o papel, o material. Estar em eventos literários para nós é decisivo”, afirmou.
Para o diretor-geral da Fundação, Sandro Magalhães, o desafio não termina quando uma obra é publicada. “Hoje já existe uma possibilidade maior de publicar seu livro, mas ainda há um grande problema: a circulação dessa obra”, destacou. Segundo ele, a instituição apoia a publicação de 100 obras por ano, trabalha na implantação de 300 espaços de leitura em diferentes territórios e prepara o novo Plano Estadual do Livro, da Leitura e da Memória, com diretrizes para os próximos dez anos. “Essas ações precisam se transformar em ações de Estado, em política de Estado, não apenas uma política da nossa gestão”, reforçou.
Criada em 2023, a Casa dos Autores e Autoras Baianos vem ampliando as oportunidades para quem busca apresentar seu trabalho ao público da Flica. Segundo a curadora Dinalva Melo, a seleção considera a trajetória dos candidatos, a relação das obras com a temática da feira e, principalmente, a oportunidade de apresentar trabalhos ainda pouco conhecidos. Na programação, os autores selecionados têm dez minutos para falar sobre seus livros e despertar a curiosidade dos leitores. O espaço também recebe exposições, apresentações musicais e debates. “Eu diria que esse ambiente traduz as feiras no seu sentido mais original e pleno. Aqui é como se fosse o espaço guardião da literatura no contexto de feiras que tendem a ser festa”.
A 14ª edição da FLICA é uma realização do Ministério da Cultura através da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet, com o Patrocínio da Petrobras, apoio da EMBASA, SEBRAE, Prefeitura Municipal de Cachoeira, Governo do Estado, Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA) e Secretaria da Fazenda (Sefaz). É contemplado também pelo Projeto Bahia Literária, iniciativa da Fundação Pedro Calmon (FPC), unidade vinculada da SecultBA, e da Secretaria Estadual de Educação (SEC). A produção é da Schommer Produções.
