Gasolina cara em um país do etanol: um contrassenso que pesa no bolso do brasileiro

O Brasil ocupa posição de destaque global quando o assunto é biocombustível. É o segundo maior produtor de etanol do mundo

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Por Rubem Junior 
Em meio a tensões internacionais e oscilações no preço do petróleo, o brasileiro volta a sentir no bolso o impacto de combustíveis cada vez mais caros. Mas, no caso do Brasil, essa realidade levanta uma pergunta inevitável: por que pagar tão caro pela gasolina se o país é uma potência mundial na produção de etanol?

O Brasil ocupa posição de destaque global quando o assunto é biocombustível. É o segundo maior produtor de etanol do mundo, com uma produção que ultrapassa os 30 bilhões de litros por ano e chegou a 36,8 bilhões de litros na safra 2023/24, segundo dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica). Desse total, cerca de 7,7 bilhões de litros já vêm do milho — um segmento que cresce rapidamente e já representa aproximadamente 20% da produção nacional.

A base da produção ainda é a cana-de-açúcar, concentrada principalmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, com destaque para o estado de São Paulo, responsável por até 60% de todo o etanol produzido no país, dependendo da safra. Além disso, o setor sucroenergético é um gigante econômico, gerando mais de 2,2 milhões de empregos diretos e indiretos.

Do ponto de vista ambiental, o etanol brasileiro também se sobressai. Considerado mais limpo e sustentável que o produzido em países como os Estados Unidos, ele se torna ainda mais estratégico em um mundo que busca reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Não por acaso, mercados exigentes, como o da Califórnia, pagam mais caro pelo produto brasileiro justamente por seu alto nível de descarbonização.

Apesar de todo esse potencial, o consumidor brasileiro ainda se vê refém da gasolina, cujo preço segue atrelado ao mercado internacional e às crises geopolíticas. A mistura obrigatória de 27% de etanol anidro na gasolina é um avanço, mas ainda insuficiente diante da capacidade produtiva nacional.

A contradição se torna ainda mais evidente quando se observa que o Brasil, em alguns momentos, chega a importar etanol anidro para suprir a demanda interna — uma consequência de falhas de planejamento, logística ou priorização de exportações. Ou seja, mesmo sendo autossuficiente em produção, o país nem sempre consegue garantir o abastecimento interno de forma estratégica.

Diante desse cenário, fica claro que o problema não é falta de alternativa, mas sim de política energética eficiente e voltada para o consumidor. Incentivar o uso do etanol hidratado, ampliar sua competitividade nos postos e fortalecer a infraestrutura de distribuição são medidas que poderiam aliviar o bolso do brasileiro de forma imediata.

Enquanto isso não acontece, o país segue vivendo um paradoxo: sendo uma potência mundial em energia limpa, mas ainda dependente de um combustível fóssil caro e volátil. Em tempos de guerra e instabilidade global, apostar no etanol não é apenas uma escolha econômica — é uma decisão estratégica que o Brasil não pode mais adiar.

Rubem Júnior é rádiojornalista, diretor do Portal Diário da Notícia.

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