Audiência pública em São Félix debate violência contra a mulher e defende implantação de CRAM no município

Evento do Agosto Lilás reuniu representantes da rede de proteção e destacou a importância do acolhimento, da assistência jurídica e psicológica e do fortalecimento das políticas públicas para mulheres em situação de violência.

A Câmara Municipal de São Félix sediou, nesta segunda-feira (31), uma audiência pública alusiva ao Agosto Lilás, campanha de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher. O encontro teve como tema o enfrentamento à violência contra a mulher e o fortalecimento da rede de proteção e reuniu representantes do poder público, profissionais da área e membros da sociedade. A reportagem do Diário da Notícia esteve presente no evento.

Entre as participantes esteve a secretária de Cruz das Almas, Dra. Nádia, que levou ao plenário uma mensagem de conscientização sobre a violência doméstica e a necessidade de ampliar as estruturas de atendimento às mulheres.

Durante sua fala, Nádia ressaltou que a violência pode começar de maneira silenciosa, por meio de comportamentos de controle, ciúme e ameaças, antes de evoluir para agressões físicas e situações ainda mais graves.

“Ciúme não é amor, controle não é cuidado. Posse não é relacionamento. E violência nunca foi demonstração de amor.”

A secretária também chamou a atenção para a forma como a sociedade reage às vítimas. Segundo ela, uma mulher que sofre violência não deve ser responsabilizada por permanecer em uma relação abusiva ou questionada sobre o que teria feito para provocar o agressor.

Para Nádia, a pergunta precisa ser direcionada a quem comete a violência: por que alguém se achou no direito de violentar uma mulher?

Ela também destacou que o enfrentamento à violência contra a mulher não pode ser tratado como uma responsabilidade exclusiva das mulheres. Homens, famílias, escolas, autoridades e toda a sociedade precisam participar da construção de uma rede capaz de prevenir agressões e proteger as vítimas.

“Precisamos ouvir antes que seja tarde”

Em outro momento da fala, Nádia alertou para a importância de identificar os sinais de violência e agir preventivamente.

Ela defendeu que uma mulher não precisa chegar ao extremo para ter sua dor reconhecida ou receber proteção.

“Precisamos aprender a ouvir antes que seja tarde. Precisamos agir antes que seja tarde. Precisamos proteger antes que seja tarde.”

A representante também fez um apelo para que os homens assumam um papel ativo na prevenção da violência, ensinando às novas gerações que agressividade e controle não representam masculinidade e que mulheres não são propriedade de ninguém.

Coordenadora do CRAM de Cruz das Almas defende implantação do serviço em São Félix

A audiência também contou com a participação de Lara, coordenadora do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) de Cruz das Almas, que apresentou a experiência do município no atendimento especializado às mulheres vítimas de violência.

À frente do serviço desde 2021, Lara explicou que o CRAM não deve ser compreendido apenas como um prédio ou uma sala de atendimento, mas como uma porta de entrada para uma rede de proteção.

“O CRAM é uma porta aberta. É um lugar onde a mulher pode chegar sem medo para ser ouvida, acolhida e assistida.”

Segundo a coordenadora, mulheres que enfrentam violência muitas vezes chegam aos serviços públicos sem saber para onde ir, sem conhecer seus direitos e, principalmente, acreditando que não existe uma saída para a situação em que estão.

Nesse contexto, ela defendeu a implantação de um CRAM em São Félix como uma ferramenta para ampliar o atendimento especializado no município.

Atendimento envolve assistência jurídica, psicológica e social

Lara explicou que a estrutura existente em Cruz das Almas conta com profissionais de diferentes áreas, incluindo advogadas, psicóloga e assistente social, além de outros serviços voltados ao atendimento e à proteção das mulheres.

Ela destacou que o trabalho não se limita ao primeiro atendimento. O CRAM atua de forma integrada com a rede de enfrentamento à violência, realizando orientações, acompanhamentos e encaminhamentos.

Entre os órgãos que precisam atuar de maneira articulada estão as polícias Militar e Civil, Ministério Público e Poder Judiciário.

Segundo Lara, essa integração é fundamental para garantir que a mulher consiga romper o ciclo de violência com segurança.

Proteção precisa ir além da denúncia

Durante a audiência, a coordenadora reforçou que uma mulher em situação de violência não precisa apenas registrar uma ocorrência. Ela também pode necessitar de acompanhamento psicológico, orientação jurídica, assistência social, encaminhamentos e, em determinadas situações, até mesmo ser retirada do município onde vive.

Lara explicou que Cruz das Almas ainda enfrenta desafios, entre eles a ausência de uma casa de acolhimento própria para mulheres em situação de risco. Ela citou, porém, a existência de unidades de acolhimento mantidas pelo Governo do Estado para situações que exigem a retirada da vítima do seu local de origem.

A profissional também ressaltou a importância da capacitação das equipes que atuam na rede de proteção, para que os profissionais saibam identificar os casos, realizar os encaminhamentos adequados e agir diante de situações de risco.

Debate reforça necessidade de fortalecer a rede em São Félix

A audiência pública do Agosto Lilás colocou em evidência a necessidade de São Félix avançar na estruturação das políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.

As falas apresentadas durante o encontro destacaram que o combate à violência não depende apenas da punição depois que o crime acontece. É necessário investir em prevenção, informação, acolhimento, autonomia, assistência e integração entre os órgãos públicos.

A mensagem deixada pelas participantes foi de que nenhuma mulher deve enfrentar sozinha uma situação de violência e que o fortalecimento da rede de proteção pode ser decisivo para interromper ciclos de agressão antes que eles terminem em tragédias. Informações do repórter Adriano Rivera, do Diário da Notícia.

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