Artigo de opinião assinado por Rubem Junior, radiojornalista do Diário da Notícia
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| Imagem criada pelo Diário da Notícia com IA |
A pergunta é pertinente porque a relação do bolsonarismo com o sistema eleitoral brasileiro passou por momentos bastante distintos nos últimos anos.
Na eleição presidencial de 2022, Jair Bolsonaro perdeu o segundo turno para Lula. Depois da divulgação do resultado, manifestações de apoiadores questionaram a legitimidade da eleição e houve bloqueios de rodovias e acampamentos em frente a instalações militares. Em 8 de janeiro de 2023, milhares de pessoas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília.
As investigações conduzidas posteriormente pelas autoridades passaram a tratar os acontecimentos como parte de uma tentativa de ruptura da ordem democrática. Jair Bolsonaro foi posteriormente condenado pelo Supremo Tribunal Federal no processo relacionado à chamada trama golpista.
Mas existe outro aspecto que merece ser lembrado.
Durante seu mandato e também ao longo da campanha eleitoral de 2022, Bolsonaro fez diversas críticas ao sistema eletrônico de votação e defendeu mudanças no modelo, incluindo a impressão do voto. O então presidente também fez declarações questionando a segurança das urnas, embora o Tribunal Superior Eleitoral sustentasse a segurança e a auditabilidade do sistema.
Quatro anos depois, o cenário apresenta uma diferença importante.
No primeiro turno de 2026, Flávio Bolsonaro terminou na primeira colocação e avançou para o segundo turno contra Lula. E, diante desse resultado favorável ao candidato apoiado pelo campo bolsonarista, não se observa, até o momento, uma contestação generalizada da confiabilidade das urnas por parte desse grupo.
É justamente aí que surge a pergunta:
A confiança nas urnas é um princípio ou depende do resultado eleitoral?
Se o sistema é considerado confiável quando o resultado beneficia determinado candidato, mas passa a ser questionado quando o resultado é desfavorável, abre-se espaço para uma discussão importante sobre coerência democrática.
É evidente que qualquer cidadão, partido ou candidato tem o direito de questionar uma eleição quando possuir evidências concretas de irregularidades. O sistema democrático prevê mecanismos próprios para contestação, fiscalização e auditoria. O que não pode ser saudável para uma democracia é transformar a confiança nas instituições eleitorais em algo condicionado à vitória ou derrota de determinado grupo político.
Por isso, caso Lula vença o segundo turno, será importante observar qual será a reação dos principais líderes bolsonaristas:
- Haverá reconhecimento do resultado?
- Haverá respeito às instituições responsáveis pela apuração?
- Ou voltaremos a ouvir questionamentos sobre a segurança das urnas eletrônicas?
Essas perguntas não significam antecipar uma reação nem afirmar que determinado comportamento necessariamente acontecerá. São questões que surgem naturalmente diante do histórico recente da política brasileira.
O mesmo princípio, aliás, deveria valer para todos os lados.
Se Flávio Bolsonaro vencer, seus adversários também deverão respeitar o resultado das urnas e utilizar os instrumentos previstos pela democracia caso tenham questionamentos concretos sobre o processo eleitoral.
A democracia não pode funcionar apenas quando o nosso candidato vence.
É fácil defender as urnas quando o resultado nos agrada. O verdadeiro teste de confiança nas instituições acontece quando o resultado é contrário às nossas expectativas.
Depois de uma década marcada por intensa polarização política, ataques às instituições e questionamentos sobre o processo eleitoral, o Brasil terá mais uma oportunidade de demonstrar a maturidade de sua democracia.
No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja apenas quem vencerá a eleição.
A pergunta é: todos estarão dispostos a aceitar o resultado das urnas, independentemente de quem seja o vencedor?
Porque democracia não significa ganhar todas as eleições.
Significa aceitar que, depois que os votos forem contados e os mecanismos legais de fiscalização forem utilizados, o resultado precisa ser respeitado.
Rubem Junior é Radiojornalista do Diário da Notícia
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