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domingo, 29 de maio de 2016

A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. Mas, a cada um segundo, a gente violenta elas de alguma forma.

Imagem: Divulgação
Por Edgard Abbehusen
***Ele tinha 16 anos quando recebeu, pela primeira vez, uma namorada em casa. Apresentou aos pais. Sua mãe, cordialmente, lhes ofereceu uma sobremesa. Ao terminar, ele recolheu os pratos sujos, levou até a pia e começou a lavar. Quando a namorada foi embora e, ao entrar em casa, a mãe, o pai e a irmã mais velha dele fizeram gozações e inúmeras piadas sobre ele ter lavado os pratos.

**** Um rapaz engravidou a namorada e os dois foram morar juntos. A garota conseguiu um bom emprego e ele teve que assumir responsabilidades como cuidar do filho, fazer comida, cuidar da casa. Os pais dele achavam aquilo um absurdo. A tia e madrinha, que ia sempre visitá-lo, achava uma humilhação o sobrinho fazer atividades domésticas enquanto a mulher trabalhava.

**** Começaram a namorar há uns quatro meses. Ele faz de tudo com ela. Ele sai escondido depois que deixa ela em casa. Ele mente pra ela. A mãe dele, apesar de achar aquilo uma sacanagem, também enxerga com naturalidade o fato do filho ser um canalha. Em conversas particulares com a nora, diz que ‘homem’ é assim, mesmo.

**** A mãe da menina da história acima diz a filha que homem bom está difícil. Que pelo menos ele não é nenhum marginal e é trabalhador e honesto. Que ‘todo homem é canalha’ e que ela precisa ir moldando ele com jeitinho.

**** A moça do supermercado apanha do marido. Chega no trabalho, pelo menos uma vez no mês, com olho inchado e manchas rochas pelo corpo. Ela diz que caiu da escada, caiu no banheiro, caiu da cama. Todo mundo sabe que ela apanha, mas todo mundo finge que ela não anda bem das pernas. A mãe dela é uma pessoa muito parecida com as duas mães acima.

**** Ele é um garoto legal. Tem muitos amigos nas redes sociais e na vida real, também. Bonito, charmoso e interessante, sempre se dá bem com as meninas e sempre que sai com alguma delas, posta em um grupo de amigos com quem está, onde está e o que fez ou que pretende fazer. A depender, ele manda até fotos da menina nua, enquanto ela dorme depois do sexo.

**** Ele é amigo do garoto acima e sempre baixa as imagens das meninas nuas que recebe e tem prazer em repassar para outros grupos.

**** Eles namoram há seis meses. Ele tem todas as senhas da rede social dela e está sempre vasculhando mensagens, ligações e agenda de contados do celular dela.

**** Ela é namorada do menino acima. Ela acha lindo e se sente importante por ele sentir esses ciúmes que ela chama de ‘bobo’, já que ela nem dá motivos pra isso.

**** A amiga dela só sai de casa com a roupa que o namorado permite que ela use. O pai e mãe dela acha isso muito legal. Dizem que o namorado ‘cuida’ dela pra ela não ‘se expor’.

**** A mãe dele foi visitá-lo na casa da namorada. Eles estão morando juntos e em outra cidade. A mãe dele saiu de lá frustrada por saber que, quem cozinha, é ele. Mandou uma mensagem enorme censurando o filho quando retornou pra cidade dela. 

**** Depois que o filho deles nasceram, ele se afastou. Acha que quem deve cuidar dessa fase de fraudas e choros é ela. Ele já está trabalhando pra comprar as coisas e precisa evitar ‘se desgastar’ com essas coisas. Todo mundo (pais dela e dele) acham essa atitude dele, linda.

**** Ele terminou com ela. Apaixonado, não sai da porta dela, vai para as mesmas festas que ela e pro mesmo barzinho que ela. A família dela acha isso tão lindo e normal e ainda perguntam o “porque ela não volta pra ele”.

**** A escola dela proíbe que ela vá de short pra aula porque o seu colega pode chama-la de gostosa.

**** Ela precisa aprender a sentar direito, pra não dar lance. E cair na internet. E virar vagabunda.

**** Ele tem dois filhos gêmeos. Um casal. Ao filho, ele diz que pode beber. A filha, ele proíbe a bebida porque diz que ‘mulher direita, não bebe’.

**** Na festa de aniversário, um casal de convidados chamou a atenção. É que enquanto a mulher conversava com amigas, o pai ficava com a criança, levando-a para brincar e prestando a atenção no que ela estava brincando. Uma parte achou aquilo um absurdo. A outra parte uma novidade.

**** Ela era solta, livre e desbocada, mesmo. Não estava nem aí pra nada. Bebia e vestia a roupa que queria. Saia com quem queria também.  Um dia, 33 homens resolveram dopá-la e estuprá-la. Um deles, quis filmar cenas dela e jogar na internet.

**** Eu, ele, a mãe dele, sua vizinha, você, nossos pais e a grande maioria assustadora de pessoas que nos cercam ajudam a estuprar uma mulher a cada 11 minutos no Brasil. Nossa omissão, nosso discurso e nossa permissividade nos tornam cumplices dos estupradores e agressores de mulheres. Talvez seja por isso que, muitos de nós, ao invés de refletir sobre o nosso papel transformador e humanitário, prefira sempre culpar a vítima.

É, eu sei. É difícil encarar o espelho depois de uma dessa.

Edgard Abbehusen é estudante de jornalismo da UFRB

*As opiniões emitidas em artigos assinados no site Diário da Notícia são de inteira e única responsabilidade dos seus autores.
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