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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Muritiba e Cruz das Almas: diferenças e semelhanças

Prefeituras de Muritiba e Cruz das Almas
Os municípios de Cruz das Almas e Muritiba têm, respectivamente, *cento e vinte e dois anos e, cem anos de emancipação política. Por terem surgido num mesmo período histórico, sendo vizinhos, deveriam ter, guardadas algumas diferenças naturais, mais ou menos, um progresso aproximado.

Desfrutando de uma mesma promissora e limítrofe região geográfica do recôncavo baiano, Cruz das Almas e Muritiba guardam enormes diferenças de progresso, especialmente evidenciadas, mais ou menos, há algumas décadas passadas.

Surgidas da exploração dos portugueses e do trabalho missionário dos jesuítas, inicialmente, ambas as localidades, antes de se emanciparem, eram povoados pertencentes ao município de Cachoeira. Mais tarde passaram a pertencer ao então criado município de São Félix, este, por sua vez, desmembrado de Cachoeira.

Ainda mesmo que tenha sido, praticamente, contemporânea na sua emancipação política com Cruz das Almas, Muritiba tem uma longa história que começa com a fundação da aldeia de “Buritiba”, no ano de 1559, conforme relata o escritor Anfilófio de Castro, em seu livro “História e Estrela de Muritiba” (1941). Depois de sua emancipação politica, Muritiba alcançou um progresso bem mais vistoso do que Cruz das Almas, especialmente durante o período áureo da cultura do tabaco e seus derivados, como os charutos manufaturados, atividade econômica que, a partir do início dos anos 1950, começou a entrar numa fase de declínio, culminando com o fechamento de uma de suas últimas fábricas, a PIMENTEL, em 1990.

Os muritibanos mais antigos que aqui residem lembram que, até os anos 1950, havia uma distancia razoável de progresso entre essas duas cidades irmãs. De lá para cá, em um espaço de tempo relativamente curto, as posições de destaque entre essas cidades inverteram-se de forma exponencial. Enquanto Muritiba entrava numa vertiginosa escalada de involução econômica e cultural, Cruz das Almas, surpreendentemente, crescia num ritmo vigoroso, deixando a sua vizinha, cada vez mais no limbo. Hoje é bem visível o fosso de crescimento que separa Muritiba de Cruz das Almas.

O que teria motivado esses dois municípios para que um crescesse e superasse expectativas, enquanto o outro, a cada dia, vem perdendo as oportunidades de crescimento? A quem então responsabilizar por essa tragédia muritibana?

Esse problema, com certeza, requer estudos técnicos e científicos mais precisos nas áreas política, sociológica e econômica, portanto, não nos arriscamos em fechar questão sobre o tema, mas, conhecedores que somos de um pouco da história da nossa região, como filhos e residentes na terra, nos arvoramos em levantar algumas sugestões de hipóteses que possam, talvez, empiricamente, tentar jogar um pouco de luz na discussão, sem, entretanto, alimentarmos alguma pretensão de resolução da questão.

Uma das teorias que buscam entender o crescimento admirável de Cruz das Almas credita o fato, apenas à implantação da Escola de Agronomia da UFBA, ocorrida em 1968. Na realidade esta escola já existia em Cruz das Almas, desde 1943, era a antiga Escola Agronômica da Bahia, sucessora da pioneira “Imperial Escola Agrícola da Bahia (IEAB)” criada, originalmente por D. Pedro II, através do decreto nº 5.957 de 23/06/1875 e inaugurada em 15 de Fevereiro de 1877 e, que funcionou inicialmente na localidade de São Bento das Lages, próximo a São Francisco do Conde, sendo depois transferida para Salvador (1931). Ainda hoje é possível se ver no local a imponência que foi aquele prédio, agora totalmente abandonado e em ruinas. Em 1943 aquela instituição de ensino agrícola foi definitivamente cedida da capital do Estado para a cidade de Cruz das Almas, sendo que, em 1968 foi incorporada pela Universidade Federal da Bahia, transformando-se, então, na “Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia” (AGRUFBA).

Esse processo da Escola de Agronomia dá um enorme salto quando, em vinte e nove de Julho de 2005 foi criada, pelo governo federal (Lei 11.151), a “Universidade Federal do Recôncavo da Bahia UFRB”, que passa, desde então, a ocupar o espaço da antiga Escola de Agronomia de Cruz das Almas, sendo ali instalada a administração central da segunda Universidade Federal da história da Bahia, com campi nas cidades de Amargosa, Cachoeira, Santo Antonio de Jesus, Feira de Santana e Santo Amaro – aqui, de pronto, vemos logo a exclusão de Muritiba nos espaços ocupados pela UFRB, embora esteja a nossa cidade situada bem no meio desta área, possuindo espaço e clima adequados para receber alguma Faculdade em nosso município.

Há uma crença generalizada de que, embora não seja uma utopia, a educação, com certeza, é a única saída para o progresso de um povo, de uma comunidade, portanto, seguindo esta tradição, não há dúvida alguma de que o investimento, ao longo do tempo, e mais precisamente na última década, na cidade cruz-almense, de um sistema público de educação superior foi um poderoso elemento a corroborar o seu crescimento social, econômico e politico. Isto é ponto pacífico! Explica muito do progresso cruz-almense, mas ainda não acreditamos que, apenas por este motivo, seja possível justificar toda essa pujança que este município demonstra, visto que, foi apenas a partir do ano de 1968 (há portanto quarenta e seis anos) que a UFBA encampou a antiga Escola Agronomica da Bahia. Por outro lado, não se pode esquecer que; por sua vez, o campus da UFBA do Reconcavo funciona naquela cidade há apenas cerca de dez anos. Quem lembra de Cruz das Almas sabe que, por exemplo, nos anos 1960, a cidade ainda era muito limitada e ficava ainda aquém de muitas outras da sua região.

Cruz das Almas conta hoje com instituições notáveis como a já citada sede da reitoria da UFRB, além da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e da Gerencia Regional da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA). Tem um polo regional de educação que é destaque na região, onde contou até pouco tempo com a Faculdade Maria Milza (FAMAM) que foi transferida, recentemente, para um novo campus situado na Rodovia BR-101 - Km 215, no município de Governador Mangabeira, Bahia. Esta instituição de ensino superior ainda mantém um núcleo na cidade, onde surgiu e cresceu. Existe também na cidade a Faculdade de Ciência e Tecnologia Albert Einstein – (FACTAE). Cruz das Almas conta com várias escolas públicas e particulares de ensinos Fundamental e Básico que atraem estudantes das cidades vizinhas pela oferta e qualidade do ensino. Tudo isto se transforma em grandes oportunidades, para que empresas e profissionais prestadores de serviço possam se instalarem no município. A cidade possui, segundo o último censo, um grande índice de boa escolaridade, inclusive quando se refere ao nível superior. Dos empresários e empreendedores nativos é comum a referencia à formação que tiveram como Engenheiros Agrônomos.

Com uma economia local que gira, basicamente, das culturas de fumo, laranja, limão tahiti e mandioca, estas atividades agrícolas contam com o apoio de educação e pesquisa, oferecidos pelas instituições congêneres existentes no município. Identificada ainda como a "Capital do Fumo", o município tem na cultura e na exportação do tabaco a dianteira no estado, sendo considerado um dos maiores exportadoras de fumo da América Latina. Ainda reforçando a importância do município, este se destaca como um polo industrial calçadista e têxtil que traz, à reboque, filiais de empresas similares. A cidade de Cruz das Almas conta com inúmeras redes de serviços, entre lojas importantes, drugstores, lojas de departamentos, supermercados e diversas agencias bancarias.

Em termos de Cultura, Cruz das Almas conta com artistas nativos de vários estilos, inclusive literatos. A cidade criou, no antigo prédio da cadeia pública, erguido em 1922, valorizando assim a sua cultura e história, o Centro Cultural Galeno D`Avelírio, que impulsiona a cultura local. Este centro cultural oferece exposição permanente de artes, Foyeur e um museu com a história da cidade. Ali também não faltam Bibliotecas, desde as bibliotecas da UFBA, da Embrapa, da Municipal e outras menores que funcionam em colégios públicos e particulares.

Para o lazer três clubes sociais funcionam, além de diversas academias que oferecem aulas de balé, artes marciais, capoeira, dança, etc. No quesito esporte há vários campos pequenos de futebol espalhados pelo município, um Ginásio de Esporte e um Estádio Municipal com capacidade para 30.000 pessoas.

Enquanto Cruz das Almas possui um índice de desenvolvimento humano municipal (IDHM) avaliado no ano de 2000, pelo “Programa das Nações Unidas Para o Desenvolvimento”, recebendo a pontuação de 0,723. Muritiba, por sua vez, apresenta o IDHM de 0,675. Em número de habitantes o último censo do ano de 2013 indicou Cruz das Almas com uma população de 63.299, a segunda maior do Recôncavo, enquanto Muritiba registrou a quantidade de 30.635 habitantes

Enfocamos as conquistas de Cruz das Almas e os dados são inegáveis quanto ao seu distanciamento, em tão poucos anos, da sua irmã Muritiba, outrora mais desenvolvida do que aquela e bem mais antiga na sua formação como vila.

A tese das conquistas educacionais obtidas por Cruz das Almas explica muito o seu progresso e é verdadeira, mas não acreditamos ser apenas este o único vetor que explica a questão. Há a ressaltar que, nessa história de ambos os municípios, o fator humano das administrações políticas não pode ser descartado, como diametralmente imbricado no problema. Vê-se, inegavelmente, que, as gestões ao longo das décadas da segunda metade do século passado e, até as de hoje, naqueles municípios, são as responsáveis por ambos resultados (tanto os positivos como os negativos). Muritiba tem uma história de descaso de seus gestores com o futuro do município, onde nunca fizeram esforços para que o progresso fosse uma preocupação em prol da cidade. Nunca houve uma gestão que priorizasse a criação de condições para que o município fosse um gerador de riquezas, saindo dessa condição de cidade-dormitório, onde as riquezas giram em torno dos vencimentos de aposentados e de uma pequena classe de servidores municipais.

O município, terra natal do Poeta das Américas, não fez jus ao que a natureza e a providencia aqui nos brindaram. Vamos focar, en passant, alguns poucos -, porem, determinantes, - exemplos de como os gestores e lideranças políticas muritibanas, desde muito tempo, foram – e continuam sendo - , no mínimo, insensíveis para com as ofertas que nos chegaram de oportunidades de progresso: A escola agrícola que foi para Cruz das Almas, por exemplo -, contam os mais antigos e conhecedores da nossa história, - foi inicialmente oferecida à Muritiba, mas os entendimentos aqui não foram adiante por desinteresse dos gestores da época. Outro fato: A Escola Estadual Polivalente para ser instalada aqui, onde era extremamente necessária, por não haver, até então, instituição de ensino similar àquela na cidade, dependeu de esforços de abnegados cidadãos comuns, não ligados à política local e que se cotizaram para quitar à vista o terreno (por acaso de propriedade do então gestor municipal, que só aceitava vender o terreno à vista), onde, à revelia da vontade do prefeito da época, foi então construída a referida escola. Mais um exemplo do descaso dos governantes e políticos de Muritiba. A Vila Residencial, que viria a abrigar os trabalhadores da Barragem de Pedra do Cavalo, também não contou com o interesse do gestor da época e, em virtude do desinteresse local, a Vila Residencial seria erguida em outra cidade próxima. Mais uma vez, abnegados muritibanos, mesmo com a indiferença dos políticos locais, foram à luta e conseguiram que esse bairro moderno fosse instalado em Muritiba. Mais outro exemplo de descaso: A própria Barragem de Pedra do Cavalo, desde as primeiras audiências, com representantes das gestões municipais do entorno da obra, para tratar dos compromissos que a obra teria com essas cidades, mais uma vez Muritiba ficou de fora e nem se dignou a enviar representantes do município para essas reuniões.

Taí as causas do nosso atraso econômico, social e cultural em relação a Cruz das Almas. Uma sequencia de gestões descompromissadas com o futuro. Quase todos pensando apenas em seus umbigos, em ver o que poderiam tirar para si da política. E nós vamos assistir a tudo isto sem darmos uma virada na forma como as coisas públicas são tratadas em nosso município?


*As idades de emancipação das cidades foram atualizadas em 2019.

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