“Vão ter que nos ver de jaleco”, diz estudante trans de Cachoeira ao falar sobre ocupar espaços na educação

Mulher trans de Cachoeira relata desafios enfrentados por travestis e mulheres trans no Brasil.

Mika Cayme mulher trans moradora de Cachoeira, no Recôncavo Baiano 
Moradora da cidade de Cachoeira, Mika Caymmi, em contato com o Diário da Notícia, fez um relato sobre a realidade vivida por muitas pessoas trans no Brasil. Em um depoimento marcado por angústia, mas também por resistência e esperança, ela descreve as dificuldades enfrentadas dentro do sistema educacional e na sociedade.

Segundo Mika, mesmo em pleno século XXI, travestis e mulheres trans ainda encontram inúmeras barreiras para ocupar espaços de formação e qualificação profissional.

Ela relembra que, durante o período em que estudou no Colégio Estadual de Cachoeira, não chegou a ter nenhuma colega trans ou travesti na sala de aula.

Anos depois, a realidade pouco mudou.

Atualmente, Mika cursa Análises Clínicas no CETEP Recôncavo. Em uma turma com 36 estudantes, ela afirma ser a única pessoa trans.

“Todas as outras são mulheres cis. Isso diz muito sobre a realidade que vivemos”, relata.

Exclusão estrutural e dificuldades de permanência na escola

Para Mika, a ausência de travestis e mulheres trans nos ambientes educacionais não acontece por acaso. Segundo ela, a exclusão começa ainda muito cedo, marcada por preconceito, discriminação e transfobia.

Ela afirma que muitas pessoas trans acabam abandonando os estudos por não se sentirem acolhidas no ambiente escolar ou por sofrerem violência e constrangimentos.

Em diversos casos, essa situação é agravada pelo rompimento familiar.

“Muitas são expulsas de casa ou acabam saindo por falta de aceitação. Isso limita completamente as oportunidades de continuar estudando e buscar uma qualificação profissional”, explica.

Esse cenário contribui diretamente para outra realidade preocupante. De acordo com dados citados no relato, cerca de 90% da população trans no Brasil recorre à prostituição como principal fonte de renda, não por escolha, mas pela dificuldade de acesso ao mercado de trabalho formal.

Resistência e ocupação de espaços

Apesar das dificuldades, Mika afirma que decidiu enfrentar as barreiras e seguir ocupando espaços que historicamente foram negados à população trans.

Hoje, ela já se prepara para atuar na área da saúde, o que para ela representa um símbolo de resistência e mudança.

“Talvez para muitos seja incômodo, mas pior vai ser quando verem a travesti vestida de jaleco”, afirma.

Para Mika, cada travesti ou mulher trans que consegue permanecer na escola ou ingressar em uma formação profissional está abrindo caminho para outras.

“Cada uma de nós que entra numa sala de aula está fazendo história. Estamos abrindo caminhos para as que virão depois”, diz.

“Não somos exceção”

Ao final do relato, Mika reforça que sua trajetória não deve ser vista como algo isolado, mas como parte de uma transformação social que começa a acontecer.

Segundo ela, o objetivo é que cada vez mais pessoas trans possam ocupar espaços na educação, no mercado de trabalho e em diferentes áreas da sociedade.

“Não somos exceção. Somos o começo de uma nova realidade”, conclui.

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